Por Homero Meyer @ 17:04 — 14/06/2012

Plotcast Lebres e Lobos – Capítulo 01


Cheiro de Morte

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Hoje, no primeiro episódio de Lebres e Lobos, Homero Meyer e Paulo Zanon interpretam Norbert Harsing e Jules Bognar, respectivamente, em uma incursão ao vilarejo de Yerkel que encontra-se sob um misterioso ataque.
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Caso você prefira ler a história, segue abaixo:
Capítulo 01

O inverno estava rigoroso naquele ano e o ar estava com cheiro de morte, mas o sangue que se espalhava na neve não era fruto do vento cortante, da fome e da falta de água… O sangue na neve era fruto do desespero. Era um sangue de cor vermelho forte, cristalizado e congelado nas lâminas negras dos malditos que atacaram o vilarejo de Yerkel durante a madrugada.

O povo branco havia retornado…

Jules Bognár sabia disso, havia visto as casas queimarem como faróis na noite, clareando o horizonte, mesmo há milhas de distância, do alto da colina onde ficava a pequena fortificação de pedra onde residia com sua família e seu povo. Naquelas terras, Jules Bognár era a lei, por isso reuniu seus melhores soldados e marchou até o vilarejo, antes mesmo do nascer do sol. Os cães e cavalos correram pelas sombras, cortando uma noite que ficara ainda mais espessa devido à tempestade de neve.

Norbert Harsing, seu mais habilidoso cavaleiro, cavalgava ao seu lado sempre atento à tudo.

– Esse é o segundo ataque nesse ano, Jules… – Disse Harsing em um tom quase interrogativo, chamando a atenção de Bognár, seu mestre e também sua mais forte referência paterna.

– O frio enlouquece os fracos, Harsing. O frio é quem traz a morte no inverno.

– Szél não é louco, ele não é fraco.

– Seu bastardo pode ser ou não ser muitas coisas, Harsing, mas gritar aos quatro ventos, alardeando à todos sobre invasores do povo branco atravessando o lago e atacando nossas terras não nos ajuda em nada. Pessoas ficam loucas nesses tempos difíceis, Harsing. É preciso saber lidar com esses assuntos.

Szél, o filho bastardo de Harsing, um vigilante de dezesseis anos que recém ingressara às forças de Jules, fora o primeiro a avistar os invasores naquela noite e correra desesperadamente rápido para alertar seu pai.

Apesar da viagem ser curta, o terreno complicado fez com que o tempo se esgotasse. Jules chegou ao vilarejo junto com a luz matinal e com a certeza que encontraria todos mortos.

O grupo de homens corpulentos, vestindo peles espessas e cotas de malha desmontou de seus cavalos, empunhou suas espadas e partiu para dentro da primeira viela da cidade. O que encontraram era exatamente o que esperavam encontrar… Homens mortos, cabeças decepadas, sangue congelado e mulheres violentadas, porém não apenas isso, por entre as chamas, Jules percebeu que os corpos não foram apenas queimados, eles foram assados e comidos. Com sua alma retorcida perante tanta crueldade contra aqueles camponeses inocentes, Jules ordenou aos seus homens que matassem qualquer pessoa que estivesse viva ali.

– Não poupem nenhuma alma. Nada deve sobreviver ao nascer do sol de hoje. – Gritou Jules Bognár, levantando tanto sua voz quanto sua espada, como se ambas pudessem ferir o inimigo.

Jules acreditava que os canibais eram amaldiçoados por panteões de demônios e não queria nenhuma forma daquelas pestes em seu território. E assim seus homens fizeram. Encontraram guerreiros magros, de faces distorcidas pelo frio e pela fome. Mataram homens, mulheres e qualquer pessoa que parecesse tomada pela loucura. Mataram dezenas de pessoas, mas nenhum deles era habitante daquele vilarejo. Invasores, usurpadores nômades e canibais desgraçados, com suas peles brancas e nuas…

Jules queria todos mortos, queimados e depois enterrados sob toneladas de neve.

A matança durou quase toda a manhã. Jules e seus soldados invadiram casa por casa à caça de seus inimigos, enquanto alguns de seus homens, à cavalo, mantinham o cerco ao redor da cidade, impedindo qualquer escapada furtiva. Um desses homens era Harsing.

Apesar de beirar os quarenta anos de vida, Norbert Harsing ainda parecia jovem. Era um exímio cavaleiro e um habilidoso arqueiro montado, reconhecido por todos como um grande guerreiro. Jules orgulhava-se dele, era seu único primo e ele o criou desde cedo. Os pais de Harsing faleceram cedo e o garoto passou a viver na casa militar, nessa época, Jules assumia o poder do Vilarejo e já encontrava em seu primo um pulso forte para auxiliá-lo nas mais difíceis tarefas como regente. Harsing era nobre, mas crescera entre soldados, fato que lhe concedera um enorme senso de dever e responsabilidade. Entretanto, era sua habilidade com armas que fazia dele único.

Harsing matou 5 homens naquela manhã, todos com tiros certeiros de seu arco de carvalho e teixo. Nada conseguia escapar de sua mira, bem como nenhum inimigo conseguia escapar de sua espada voraz.

Quando o sol já se posicionava alto no céu, Jules pensou que a situação estava controlada, mas uma última surpresa ainda se revelaria naquele vilarejo. Uma surpresa sangrenta que nenhum daqueles homens, brutamontes acostumados com carnificina, jamais esqueceu…

O som oco e repetitivo chamou a atenção de Jules e seus homens durante o final das buscas, eles estavam seguindo uma trilha mata adentro e as pancadas pareciam vir de uma pequena cabana com paredes de terra batida.

Harsing havia desmontado de seu cavalo e agora embrenhava-se na mata fechada com passos curtos e firmes. Jules fez sinal com as mãos, pedindo silêncio para seus homens, eram quatro deles ao seu lado e todos seguiram seus passos curtos com cuidado até ficarem alinhados de frente para a pequena porta feita com tábuas de madeira envelhecida. As batidas continuavam lá dentro, mas nenhum deles se moveu, não antes de Jules derrubar a porta com um chute.

Dentro da casa o cheiro era insuportável. Era morte, misturada com urina, com suor e sangue. Apenas poucos raios de luz conseguiam contornar as palhas secas do telhado e invadir a casa, mas eram suficientes para revelar Molnár bem no meio dela. Ele estava ajoelhado e socava o chão com as duas mãos em um movimento constante. Ele socava o chão com a mão direita, depois com a esquerda, socava e socava, fazendo o som ecoar pela casa. Molnár era um garoto ainda, aparentava ter apenas 15 anos. Jules entrou na casa e olhou para os lados. Primeiro conseguiu ver uma mulher morta ao lado de um punhado de carvão, provavelmente uma fogueira que há muito tempo fora extinta. alguns passos depois, porém, observou que Molnár não socava apenas o chão… Havia um corpo em sua frente, mas não havia nenhuma cabeça.

Molnár estava em estado de choque. Os quatro homens de Jules precisaram entrar na casa e segurá-lo apenas para que ele parasse de socar. Todos os ossos de suas duas mãos estavam quebrados e o garoto estava banhado em sangue. Quando ele finalmente foi dominado e retirado da casa, Jules entendeu o que acontecera ali. Molnár tentara defender sua mãe, mas essa fora brutalmente assassinada pelo invasor, então, quando conseguiu atacá-lo e derrubá-lo o garoto começou a socar e não parou nunca mais.

Molnár socou a cabeça do homem até partir seu crânio, e quando todos os ossos de suas mãos quebraram, ele continuou socando. Haviam pedaços de crânio espalhados pela casa, havia sangue por todos os lados, a massa cerebral do homem era indistinguível da lama e da neve. Tudo ali era o caos. Jules sentiu pena de Molnár, mas mesmo assim pensou em matá-lo. Tirou seu punhal da bainha e decidiu que um golpe rápido roubaria a vida do garoto sem lhe trazer mais nenhum sofrimento, seria misericórdia, ele pensou.

Harsing abrigara o garoto em seus braços para que ele parasse de lutar, ele tinha a altura de Szél e sua feição triste, porém forte, também lembrava a de seu filho bastardo.

Jules deu passos decisivos para fora da casa, mas então pode ver que todos alí estavam dedicados à proteger o garoto.

– Jules, precisamos levá-lo depressa! Ele ainda está sangrando muito.

– Levá-lo?! Está doente, Harsing? Ele foi tocado pelo povo branco, está amaldiçoado.

– É apenas uma criança, Jules, talvez da idade de Szél. Não vou abandoná-lo aqui.

– Não vamos abandoná-lo, devemos matá-lo, isso sim.

– Não, Jules. Misericórdia. Doce filho do vento! Não podemos matá-lo. Ele é o único que pode nos dizer o que aconteceu aqui!

– Como quiser, Harsing. A responsabilidade é sua, a maldição é sua! – Bradou Jules dando as costas aos companheiros, não gostava da ideia de matar um garoto ferido, então aceitou perder a discussão.

Poucas horas depois, Molnár estava falando calmamente, sem nenhum traço de loucura. O garoto contou que os invasores chegaram no começo da madrugada, seu pai, um grande caçador da região, fora o primeiro a enfrentá-los. Durante algumas horas, os habitantes do vilarejo conseguiram reagir, mas a morte de seu pai acabou com toda a resistência. Ele estava escondido na mata quando viu o líder do povo branco se dirigir para sua casa, ele esperou até sua mãe começar a gritar, de forma que os gritos dela camuflassem sua invasão na casa. Ele golpeou o invasor, mas seu corpo não fora o suficientemente forte para derrubá-lo, dessa forma, o invasor aborrecido matou sua mãe e então partiu para cima do garoto. Uma panela de ferro foi a arma usada por ele para derrubar o opressor e amassar sua cabeça, depois disso, permaneceu usando seus punhos para esmagar a cabeça até não sobrar mais nada.

Molnár desabou em um sono profundo, completamente esgotado. Harsing o colocou sobre seu cavalo e disse à Jules que cuidaria dele. Jules aceitou e os homens partiram para longe daquela vila morta, carregando consigo uma criança amaldiçoada, cujo destino afetaria a vida de todos.